Gratidão (?)


E ai xuxus, tudo bem?

Hoje eu gostaria de levar vocês comigo numa mágica viagem pelo meu banheiro. Estava eu fazendo meu xixizinho matinal, contemplando a vida, quando de repente, comecei a olhar ao redor, pelo meu banheiro. Comecei a pensar na minha casa, e em todas as coisas que tenho e senti gratidão. E isso me fez pensar justamente sobre o conceito de gratidão e é sobre isso que eu quero falar com vocês essa semana.
Primeiramente eu quero dizer que eu fugi da gratidão por muito tempo, pelo simples fato de que a galera tem divulgado “ser grato” como o contrário de reclamar, e isso para mim é uma trava. Eu vejo que no meio “good vibes”/autoajuda/ coaching existe uma negação da reclamação e das emoções “negativas”; é como se a você não fosse permitido sentir qualquer emoção que não seja amor, paz, luz, gratidão, etc etc etc. E isso para mim, como psicóloga, é a receita para o fracasso. Ao negar suas frustrações, você não está acabando com elas, só as está jogando para outro lugar, e uma hora ou outra elas vão voltar à superfície. Então, o que eu percebo é que se usa muito o discurso da gratidão para meio que domar as pessoas e torná-las resilientes (uma palavra que também não me agrada nem um pouco porque também tem sido usada para mascarar abuso e exploração), é como se dissessem “você está numa situação de merda, mas TEM QUE ser grato, e parar de reclamar”. Bom, eu acredito que a gratidão vem muito mais do reconhecimento dos seus privilégios do que do simples fato de parar de reclamar. E isso me traz de volta à viagem pelo meu banheiro e meu xixi matinal.
Eu parei para pensar que tem muita gente, em pleno 2020, que não sabe quando vai ser sua próxima refeição, que não tem água potável para beber, que não tem nem saneamento básico, um teto sob sua cabeça para dormir em paz, e que eu, por ter tudo isso, sou privilegiada. Alguns adeptos da meritocracia podem dizer que não é privilégio, que é porque “EU MERECI”. Mas então quer dizer que o básico para viver, uma água para beber, não é um direito de too ser humano? Que quem não o tem, não tem porque não merece?? Como assim? E é por isso que eu não digo que tenho essas coisas porque mereço, porque na verdade todos os seres humanos merecem ter água, comida e um teto para morar, mas sim porque eu sou privilegiada, e isso é uma merda - não eu ser privilegiada, mas que coisas como essas sejam privilégios. E sendo assim, sou grata por tê-los, e não os tratos como algo garantido, afinal privilégios são dados, mas também podem ser levados num instante. Mas isso não retira meu direito de me frustrar e reclamar pelas coisas que eu não tenho, pelas coisas que estão dando errado, pela vida não estar exatamente como eu quero. Reclamar da vida não te faz menos grato!
E aqui chegamos no ponto principal do post de hoje, e vou ilustrar com um exemplo: Fulaninho trabalha num emprego horrível, onde o chefe o explora e paga mal. Fulaninho reclama por causa do emprego, óbvio. Ouvindo fulaninho reclamar, joãzinho fala que ele é ingrato e tem que parar de reclamar porque ele tem um emprego e precisa SER GRATO por tê-lo, porque muitas outras pessoas no mundo não têm nenhum. E com isso normaliza-se o abuso e a exploração, em nome da tal gratidão. O que eu penso é que fulaninho pode sim ser grato por ter um emprego, visto que ele poderia não ter e ser como muitos desempregados que não sabem se vão conseguir pagar as contas no mês seguinte, mas isso não anula o fato de que ele tem um emprego horrível, e que ele não precisa ficar alienado às circunstâncias ruins do seu trabalho só para ser grato; é possível reclamar do emprego de merda, e ser grato pelo emprego de merda, uma coisa não exclui a outra, pelo contrário, te mostra como ser grato sem ser um alienado que aceita todo tipo de abuso.

Bom, por hoje é só, tenham um bom resto de semana!

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