Psicologia Das Massas E O Fascismo, Uma Resenha

Bom... Agora que acabou o período, terei mais tempo pra voltar a escrever (assim espero), mas enquanto eu to aproveitando minhas férias pra colocar outras tarefas em dia, vou deixar aqui essa ressenha que fiz pra uma das minhas disciplinas, porque eu até gostei do que eu escrevi :)

Resenha do livro Psicologia das Massas E O Fascismo, de Wilheim Reich, publicado em 1933

Em 1930, após ter perdido a primeira guerra mundial, a Alemanha se viu imersa em humilhação e descontentamento. Juntando isso à crise econômica do capitalismo após a queda da bolsa em 1929, em teoria, deveria ter criado o cenário perfeito para uma busca dos trabalhadores pela alternativa socialista para sair dessa crise, porém, estes recorreram à barbárie dos movimentos fascistas. O que Reich tenta mostrar neste livro é o porquê de isso ter acontecido. Por que a massa não tomou consciência de sua situação de exploração e se rebelou, mas invés disso, defendeu valores morais e conservadores como solução para “salvação do país”?
A peça chave para iniciar a análise de Reich é o que ele chama de clivagem, que seria a separação entre a situação econômica do trabalhador e a situação ideológica dele. Ou seja, era de se esperar que diante da pobreza e da miséria em que vivia, a classe operária tomaria consciência de sua situação e começaria uma revolução. Porém o que ocorreu na Alemanha (e ainda hoje acontece, em vários lugares no mundo) foi o contrário, devido a essa separação entre situação econômica e ideologia. Mas como se deu essa clivagem?
Segundo Reich, fazer a classe trabalhadora perceber a exploração que sofre não é suficiente para “ativar um ímpeto revolucionário”, já que muitos percebiam, e mesmo assim apoiaram movimentos fascistas. Essa é uma observação pertinente, sobretudo nos dias de hoje, em que vemos situações semelhantes acontecendo. De nada adianta demonstrar que esse comportamento é “irracional” ou falar em “psicose das massas”, como outros fizeram em análises anteriores, se não estudarmos a psicologia dessas massas. Porque tantas pessoas apoiaram o nazismo na Alemanha? Por que tantos ainda estão apoiando políticos fascistas hoje em dia? O que impede que a massa tome “consciência de sua classe”?
Durante seus estudos, Reich percebeu a relação entre sexualidade e política, e em Psicologia Das Massas e o Fascismo, ele demonstrou como a repressão sexual está ligada aos governos totalitários. Reich afirmou que:
“A repressão da satisfação das necessidades materiais tem resultados
diferentes da repressão das necessidades sexuais. A primeira leva à revolta, mas a
segunda impede a rebelião contra as duas espécies de repressão ao reprimir os impulsos
sexuais, retirando-os do domínio do consciente e fixando-se como defesa moral. Na
verdade, também a inibição da própria rebelião é inconsciente. Na consciência do
homem médio apolítico não se encontram vestígios disso.
O resultado é o conservadorismo, o medo da liberdade; em resumo, a
mentalidade reacionária.” (pag. 46)

Ou seja, embora haja pobreza e miséria, isso não dispara o gatilho de uma revolução visto que há também uma repressão sexual, porém está é mais sutil, já que vai para o inconsciente e acaba transformando-se em conservadorismo, e valores conservadores não apoiam revoltas, pelo contrário.
A repressão sexual seria então a causa da clivagem entre a situação econômica e situação ideológica, o trabalhador não toma consciência de classe porque há algo mais forte que o impede, e essa é a função social da repressão sexual, para ele: reprimir qualquer impulso vital que busque a satisfação, incluindo a revolução.
Reich afirma também que, quando não há satisfação dos desejos de formal “normal”, devido à sua repressão, a sexualidade busca outras formas de se satisfazer, por exemplo no caso da agressividade natural, ela se transforma no que ele chama de “sadismo brutal”, que é o principal elemento na mente reacionária. Seria possível fazer um paralelo com os dias atuais, analisando os discursos de políticos fascistas e como eles são exaltados e reproduzidos pela massa. Um exemplo simples e infelizmente cotidiano, são os casos de assalto, onde vemos como as pessoas vibram ao ver o assaltante apanhado na rua, algo muito parecido com o que se fazia nos tempos medievais (como durante as execuções em praça pública, que serviam para “dar o exemplo”, mas na realidade só alimentavam o sadismo da massa, que assistia a tudo como se fosse um espetáculo).
Devido a isso, ele afirma como é fácil se aproveitar dessa repressão sexual para atingir o objetivo de recrutar pessoas para apoiar uma causa fascista:

“Recordemos, por último, os cartazes publicitários das potências
bélicas, que exibiam os seguintes dizeres: "Se você quer conhecer países estrangeiros,
aliste-se na marinha real"; neles, os países estrangeiros estão representados por
mulheres exóticas. Por que motivo esses cartazes surtem efeito? Porque a nossa
juventude se tornou sexualmente faminta, devido à repressão sexual.” (pag 46)

Vemos isso acontecer até hoje, porém invés de recrutas para guerra, a mídia consegue mexer com os desejos inconscientes da massa à serviço do capitalismo para vender produtos, serviços, etc.
Outro ponto importante para Reich, é a instituição que mantem e perpetua estados autoritários, que para ele, é a família (que ele afirma ser uma miniatura do estado autoritário). A repressão sexual começa na família e tem início desde cedo, com a repressão da sexualidade infantil, criando crianças obedientes, dóceis e medrosas, que se adaptam para obedecer às regras da sua família. Isso é reproduzido durante toda a vida, em vários contextos em que se veem diante de uma figura de autoridade, como por exemplo, em políticos que se afirmam defensores da família tradicional, e encontram eco na população, que também se tornou tão reprimida que defende os valores morais com unhas e dentes. Nesse ponto, é possível citar até um trecho do Filme Matrix, de 1999, onde o personagem Morpheus fala “e muitas delas (pessoas) estão tão inertes, tão desesperadamente dependentes dos sistemas, que iram lutar para protege-lo”. Afinal, como foi dito anteriormente, a repressão sexual cria indivíduos dóceis e obedientes, que tem medo da liberdade, de expressar seus desejos de forma livre e “natural”, e qualquer pessoa que o faça, é vista como ameaça, por isso é tão importante para essas pessoas, que se defenda a família, e os “valores morais”. Qualquer impulso em relação à satisfação sexual é reprimido, e associado ao medo, paralisando as forças de rebelião e o pensamento crítico. Dessa forma, o objetivo da moralidade é alcançado: tornar o indivíduo submisso à ordem autoritária:
“O conflito que originalmente se trava entre os desejos da criança
e as proibições dos pais torna-se, mais tarde, um conflito entre o instinto e a moralidade
dentro da pessoa. O código moral, em si mesmo inconsciente, atua, no adulto, contra a
compreensão das leis da sexualidade e da vida psíquica inconsciente; reforça a repressão
sexual ("resistência sexual") e é responsável pela resistência geral ao "desvendar" da
sexualidade infantil.” (pag. 43)

Mas ao mesmo tempo em que a criança é reprimida pelo pai, e se torna um adulto submisso aos patrões, isso cria também um desejo de identificação com os superiores (na infância, como pai e mais tarde, com o patrão, o que, para Reich é fundamental para que ocorra a clivagem: o trabalhador é explorado pelo patrão, o que deveria ser suficiente para que ele se rebelasse, porém, ele possui esse desejo de identificação com esse patrão, tal qual tinha com o pai repressor na infância, o que o leva, ideologicamente para o outro caminho, impedindo-o de se rebelar. Isso é visto no funcionário público, por exemplo, que começa a desejar ser como o seu superior, que tem uma vida simples, mas se esforça para parecer que pertence à mesma classe econômica do patrão. A sua situação econômica não condiz com a imagem que ele pretende demonstrar, pois ele é explorado diariamente pelos superiores, porem sua ideologia busca a identificação com estes, o que acaba por criar a clivagem que Reich falava.
A posição que o superior hierárquico assume em relação ao pai,
no processo de produção, é por este assumida dentro da família. Ele
reproduz nos filhos, especialmente nos de sexo masculino, a sua atitude de
submissão para com a autoridade. É deste tipo de relações que resulta
a atitude passiva e obediente do indivíduo da classe média baixa
face à figura do führer, Hitler apoiou-se, sem disso ter consciência
profunda, neste tipo de atitudes da classe média baixa (pag 61)

Ou seja, nossas relações com as pessoas fora da esfera familiar (inclusive nossa relação com a política) são meros “espelhos” da forma como nos relacionamentos dentro da nossa família. Um conhecimento que não era novidade alguma, porém não era explorado por vários estudiosos da época em suas tentativas de explicar o surgimento desses movimentos. Reich conclui que o fascismo é “a expressão da estrutura irracional do caráter do homem médio, cujas necessidades biológicas primárias e cujos impulsos têm sido reprimidos há milênios”. Essa definição nos mostra que sua análise feita há quase nove décadas, é um tema constante na humanidade e nos permite utilizar seus conhecimentos para fazer um paralelo com os dias atuais.
Claro que existem inúmeros fatores para explicar a ascensão do fascismo, e seria ingenuidade pensar que os argumentos de Reich são a única razão pela qual esses governos se estabeleceram, porem ele põe uma luz sobre algo que não havia sido considerado nas várias analises sobre a psicologia das massas, e nos mostra um aspecto importante, que influencia o estabelecimento de governos autoritários. E o mais importante: nos serve também de reflexão sobre como estamos evoluindo, afinal um livro baseado em estudos do movimento nazista ainda incipiente (1930 – 1933) consegue ser tão atual a ponto de seus conceitos ainda serem aplicado a uma população de outra nacionalidade e quase 90 anos depois.

Bom, é isso. Desculpem a formatação cagada, eu só copiei do word e colei aqui.
Kisses :*

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